Ah! Queria-vos dizer: fiz contrabando de,de muito jovem. (Incomprensíbel) dava muito jeito, andava a estudar, e dava muito jeito. Minha mãe nom queria, mas a minha avó deixava (...) Ela recebia, recebia. Passava vacas, eu só passei vacas. Eu ia ao marco 18 e,e,e ao marco 18 buscar as vacas, e,e,e nós pra lá levávamos vacas velhas, e de lá para (incomprensíbel). Mas nom era para nós comer, nós mandávamos-lhes pra baixo do Porto, pra baixo do Porto.
Era óbvio que, quando comecei a andar pelos lugares do Laboreiro, no sopé do Laboreiro, eu quando vou a uma aldeia, das primeiras cousas que faço é ir ao cemitério, porque no cemitério aprende-se muito. E,e os apelidos eram os mesmos. Eu falava coas pessoas, a cor dos olhos era a mesma, o cabelo era a mesma, o ADN é o mesmo, a única cousa que fizerom foi uma fronteira, i quem a fez nom fomos nós: foi Lisboa i Madrid. I eu comecei a perceber que o ADN era das mesmas pessoas, i eu nom tenho mais afinidade que um galego, cum galego do que cum alentejano, cum algarvio. Aliás, um dia estava em Silves, e,e sabem onde é que é Silves? Aí embaixo estava numa festa medieval, estava numa festa medieval, estava na platea, aqui nos primeiros lugares, i eles fazem um confronto, aquilo foi Dom Sancho I que tomou Silves, e,e o segundo rei português, i,e,e Silves era ali um baluarte do lado português, árabe ainda. I, então, era o confronto dos árabes cos nazarenos, não é? I,e,e,e o senhor que animava a cousa veu-me buscar para ficar do lado dos árabes (...) Entom veio direito a mim, peço para que eu ficasse do lado dos árabes, i eu pensei que vinha direito a mim, e,e, tive muita sorte, porque eu, evitou um pequeno constrangimento, porque eu ia-lhe dizer, quando o vi vir, disse: "Bom, vou ter que dizer que eu sou do lado dos nazarenos". (...) Então, no entanto, apanhou um armário, devia ser holandês ou um alemão, que era mais largo do que eu: "Eu precisava de gente pra luitar do lado dos árabes", e então foi (...) ele, fui salvo. (Incomprensíbel). Eu sou, eu sou (incomprensíbel) nazareno.
E,e é verdade, a língua é quase igual. Quando eu era pequeno os velhos falavam mui,mui igual, ali naquela zona. Aliás, quando eu cheguei estudando abaixo, e,e,e eles diziam que eu falava galego, e,e, não é? galego, fala galego, quer dizer, não é? E,e era muito chato, porque os melhores alunos da minha turma de português era eu e outro de Castro Laboreiro. Nós falávamos galego. Era o outro de Castro, mas do Ribeiro, fica aí mesmo à beira do [], e era,era,era uma chatice, era uma chatice. I,e,e, depois apercebi-me que eu era mais rico que eles, porque no fundo eu falava um português arcaico, de Fernão Lopes, de Gil Vicente, etcétera, etcétera, i eles nom o entendiam. (Incomprensíbel) Fernão Lopes e Gil Vicente, e eles nom entendiam essa língua.
Muito bem, nom os vou maçar mais, e,e,e poderia falar de mais cousas, mas chega, e,e, ponto. Espero nom ter defraudado porque e,e nom sabia que havia de dizer, e,e...
Autor/a da transcrición: e~xenio