Maria Aurora Botão Pereira: Pois, boa noite, obrigada já polo convite, peço desculpa por falar em português, mas somos uma grande família que nos une há milhares de anos desde a antiguidade e, por tanto, penso que estou desculpada e vão-me compreender, certamente.
I eu iniciei um estudo sobre Vila Praia de Âncora entre três séculos, 1624-1924, cruzando todos os nasci/ todos os registos paroquiais de Vila Praia de Âncora, no sentido de compreender o desenvolvimento de Vila Praia de Âncora. Por tanto, fiz uma árvore genealógica gigantesca ao longo de três séculos para compreender, para perceber como é que a população evoluiu.
Estas são as fichas que saem depois no, no, no programa de computadores, fichas de família com a respetiva descendência, os filhos. E, por tanto, eu parti do princípio que em Vila Praia de Âncora, como sempre (incompreensível), existiam pescadores.
E,e,e o facto é que, desde o início do estudo, em 1624 eu só encontrava lavradores e canteiros e pedreiros e nada de pescadores. As primeiras referências que, que eu encontrei são referências, digamos/ dispersas e que só falam, como veem aí nessa carta topográfica, na legenda dessa carta topográfica de 1753, que o porto de Âncora era natural, era um ancoradouro com características para os barcos se recolherem em tempos de, de, de, de mal tempo, e, e, como diz aí, onde se recolhem muitos barcos portugueses e galegos. E noutro documento diz aí ainda que, no qual entram, somente, barcos de pescadores e algumas lanchas de Galiza e Caminha, portanto, os naturais, os habitantes de Vila Praia de Âncora, não utilizavam o mar como recurso económico.
Como veem na, na rodinha vermelha, é dizer, na superior, que a comunidade, a, a, a freguesia, ficava a 2 quilómetros do litoral, enquanto que/ o, o, o porto de pesca, o futuro porto de pesca, ficaria/ logicamente, junto, junto ao litoral, 2 quilómetros. A comunidade de Vila Praia de Âncora era completamente rural, vivia de uma economia de subsistência e de complementaridade ligada à, à construção. Até que, finalmente, em 1825 chegou o, o nosso, eu ia dizer o meu mas não, é nosso, o nosso primeiro pescador porque ele é, exatamente, natural de, de La Guardia. Chama-se António Verde, estava casado com Rosa Benita da Peña, nasceu em 88 aqui, em 1788 em Guarda, e casou com a Rosa Benita em 1811. Teve vários filhos, Manuel, Teresa, Luis, Pedro e João que nasceram aqui, em A Guarda, e dois, os outros, os últimos dois filhos, João Evangelista e José, nasceram já em Vila Praia de Âncora, em 1825 e 28. E foi nos registos paroquiais que eu fui encontra-los. Á direita não vão ler com certeza, mas têm a árvore genealógica da família Verde, a primeira linha diz respeito aos pais, progenitores. A segunda são, são os sete filhos que ele, que o casal teve e a terceira já é/ digamos, a correspondente à terceira geração da, da família Verde.
E eu, realmente, fiquei muito surpreendida porque, pela, pela, polo aparecimento de um pescador/ galego, da Guarda, e por tanto fui questionar, fui ao arquivo de Tui e realmente/ comprovei que ele era da Guarda, tinha nascido, era filho, era de família de mareantes como disse o próprio registo de, de nascimento.
Os meninos, filhos dele, que por tanto nasceram por volta de 1815 e 20 e tal, em 1843 já estavam a liderar a atividade da pesca em Vila Praia de Âncora. Só havia uma, duas, três, quatro, seis embarcações, todas muito pequenas/ com uma tonelada e eles todos, eles/ pertenciam às várias campanhas e, digamos assim, estavam à frente da atividade marítima em Vila Praia de Âncora. Como veem/ a maioria deles é da Guarda.
Depois da família Verde outras foram chegando, lentamente, no total foram 61, a maior/ o maior número de chegadas foi na década de 1868 e 1879, 26 famílias e no total do período, entre 1825 e 1924 nasceram 2.107 descendentes destas famílias galegas, ou seja, praticamente a metade de todos os meninos daquela época, o que uma coisa extraordinária.
(…) A verde, basta verificar só a verde/ a verde corresponde à linha de nascimentos entre 1624 e 1834 e veem que não passa nada en Vila Praia de Âncora até a chegada do, dos pescadores galegos. Só, a partir dos pescadores galegos, é que realmente a curva de nascimentos cresce, cresce, cresce, cresce, cresce, cresce ((Risos do público)) É uma das razões do desenvolvimento populacional de Vila Praia de Âncora e de, e da elevação da própria elevação a vila de/ porque Vila Praia de Âncora era uma aldeia que ficava junto à serra, e por tanto pois foi elevada a vila em 1924 e uma das razões, exatamente, é o desenvolvimento demográfico e não há dúvida nenhuma que os galegos foram muito prolíficos e deixaram uma descendência, que ainda hoje, ca e lá, somos uma família, sem dúvida alguma.
Xosé Font: Ou sexa que non só pescaban.
M. A. B. P.: Não só pescavam. De aí a razão porque o antigo centro comunitário que ficava junto à montanha, ao monte do Calvário, que (alguém) conhece, se deslocasse para junto da praia, não sei se conhecem Vila, muitos devem conhecer Vila Praia de Âncora, por tanto, o centro atual não corresponde ao centro da comunidade de 1600 e de 1700.
Aqui têm os/ , aqui têm os pais de famílias galegos, têm aí as várias/ a data da chegada, os nomes, os apelidos, a origem, donde é que vêm, a que é que se vão dedicar e o número de descendentes por cada família. Mais progenitores, digamos galegos/ os apelidos continuam, mais ou menos, a ser os mesmos: Peñas, Gaviños, (incompreensível) Castros, Portelas, certamente que estes apelidos lhes são familiares. Conseguem ler, não?
X. F.: Se están recoñecendo, eh, aí, polo que vexo, eh!
((Risos))
X. F.: Se están recoñecendo, hai moitos apelidos d'aquí, claro que si.
M. A. B. P.: Pronto. Aqui são as famílias com mãe galega, também Alonso, Verde, Durán, Ferreira, Castro, Peña, Gonzalvez. Mães, mães galegas (incompreensível) España, Vicente. Não sei se conhecem essas famílias, se elas subsistem, portanto a origem, a profissão, casaram com pais portugueses e o número de descendentes por cada família.
Houve um estudo em 1886 que realmente detetou a chegada desta colónia, que eles, que ele chamou colónia de pescadores galegos e que diz o seguinte:
"Antigamente havia aqui três ou quatro barcos de pesca pertencentes a lavradores para a apanha do sargaço que, como todos nos sabemos era o adubo das terras de então, não existindo ainda obra alguma para abrigo. Depois duma pequena colónia de pescadores galegos do porto da Guardia, veu estabelecer-se neste ponto, conseguindo mais tarde que o governo mandasse construir o varadouro e desenvolvendo-se, pouco a pouco, chegou a constituir um centro de pesquerias de alguma importância."
Aqui está uma família de pescadores galegos, de apelido Centos, estão aqui representada/ tem aqui nove filhos mas eles tiveram doce, só sobreviveram estes que estão na fotografia e como veem é uma família bastante numerosa.
Depois, inda procurei nos registos de inscrição marítima do final do século XIX, estes datam de 1891/ a partir de 91 foram obrigados a registar-se os marítimos dos pescadores e encontrei, ainda, os/ alguns descendentes da família Verde. João José Verde, Joaquim Ivam Lista Verde, da, da terceira geração; António Verde, já da quarta, este faleceu naufragado; António Alonso da Guarda/ Não conseguem ver/ Sim, está aqui o nome. Acabado de chegar em 1893, natural da Guarda, aqui. Isidro António de Castro, nome, natural da Guarda, também. Camilo, já é filho do Isidro, continuou na mesma atividade do pai, como pescador. O Generoso Guisandes, também da Guarda. Bernardino da Peña, também da Guarda.
E pronto, agora algumas imagens sobre o porto de mar. Eu não sou especialista em embarcações mas quem está no público, quem é marinheiro, quem foi pescador pode perfeitamente verificar se estes, se estes barcos, eu acho que sim, que têm filiação galega porque se os pescadores são galegos eles trouxeram com eles as suas artes e as suas embarcações. Tanto é que a nossa, a nossa embarcação tradicional é a masseira, exatamente igual à vossa gamela. A vossa gamela está aqui à esquerda, vós utilizavam marcas como nós também utilizávamos, exatamente iguais. Isso é. Á direita/ a que está à direita que pertence a Eurico Vasconcelos é exatamente igual à que está na vossa gamela da, da Guarda.
E, também não é por acaso que Firmino Evangelista Verde, que é neto de António Verde, foi o/ proprietário do maior estaleiro naval em Vila Praia de Âncora, exatamente porque trouxesse esse conhecimento de construção que nós não tínhamos como agricultores e, e lavradores.
X. F.: Temos que rematar.
M. A. B. P.: E rematamos.
X. F.: Moi ben.
M. A. B. P.: Por tanto rematamos aqui sobre as consequências e os laços que unem A Guarda e Vila Praia de Âncora. Por tanto, sem dúvida alguma, foram eles que desenvolveram a atividade da pesca a partir de 1825, inexistente até a data, e atualmente uma das alavancas económicas mais importantes da, da vila. (...) Desenvolveram também as artes de marear, trouxeram as, a tipologia, as embarcações, os aprestros, as tradições de filiação galega. Desenvolveram, principalmente, a população de Vila Praia de Âncora que estava reduzida a, a, a agricultores e a canteiros e, e cresceu de forma que, como disse já, Vila Praia de Âncora foi elevada a vila em 24, e depois mantiveram uma atividade muito participativa na praia de banhos, por tanto, eram eles que alugavam as suas casas aos banhistas porque é simultâneo de Vila Praia de Âncora que esteja também com/ o turismo, digamos assim/ e eram eles, que alugavam já que estavam/ ocuparam o areal enfrente à praia, eram eles que alugavam as casas, introduziram os chamados banhos quentes, já naquela altura, em grandes tinas de granito que era uma aquecida pois a agua do mar era aquecida.
Eram os únicos a saber nadar, logo, eram eles que davam os banhos aos, aos, aos nossos banhistas.
Depois deixo uma ligazón, isto já para outro domínio do, do imaterial entre Santa Tegra/ da Senhora da Bonança, da nossa festividade e Santa Tegra. Nessa altura as fronteiras eram libertas, mesmo no tempo da ditadura o trânsito era livre, exatamente para as duas comunidades poderem comunicar por causa dos laços de parentesco que existiam e durante/ e falei com várias pessoas de, de bastante idade que me referiram que, só para rematar, é só uma pequena achega, que pudera ser objeto de estudo no futuro, que durante as duas grandes guerras, as famílias dum lado e do outro, do outro, se entre-ajudavam com mantimentos quando havia fome, pronto, que era natural naquela altura.
E, e todo por todo/ por agora. Obrigada
X. F.: Obrigado.
Autor/a da transcrición: e~xenio